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Centro de Saúde PDF Imprimir e-mail

Entrevista

Há quanto tempo trabalha no Livramento?
Trabalho desde o dia 1 de Janeiro de 1990, ou seja à cerca de 20 anos.

Porque veio para cá, e como encontrou a freguesia ao nível dos cuidados de saúde?

Bom, sou francesa e vim para cá trabalhar porque ninguém queria trabalhar nesta freguesia. As pessoas tinham medo de vir porque era uma freguesia um pouco complicada e como não conhecia os outros sítios avancei. Só mais tarde é que percebi quais eram estas as dificuldades.
Sobre os cuidados de saúde, o que havia na altura era um recurso esporádico aos cuidados de saúde. O mais habitual era vir alguém com dor de cabeça ou indisposição. Estava com o enfermeiro, via a tensão e se esta estivesse alta, o médico passava o medicamento e depois a pessoa tomava a medicação indicada. Se ao fim de algum tempo voltasse a aparecer novas dores, o sistema era exactamente o mesmo, ir ao enfermeiro e depois o médico passa a receita. Ou seja tornava-se num ciclo que acabava por trazer quase sempre as mesmas pessoas com quase sempre as mesmas coisas. Era assim para os hipertensos e diabéticos.
As mulheres não faziam planeamento familiar, regra geral a gravidez era mal acompanhada. As crianças, na sua maioria, não faziam os controlos de saúde regulares, porque acabavam por não aparecer às consultas marcadas.
Os idosos vinham basicamente pedir a receita médica e o que esperavam do médico era apenas o passar desta receita, ou seja, não pretendiam uma consulta.
Resumindo acabavam por ser cuidados de enfermagem ligeiramente melhorados.
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Nicole Thorey
Médica

 

E as instalações como eram?
Estávamos instalados num antigo talho, que foi transformado em sede provisória da Casa do Povo, uma situação que durou vários anos. Quando eu comecei, fazia consultas num quarto que quando alguém saia e fechava a porta acabava sempre por cair estuco das paredes. Chovia no interior do edifício, ou seja as condições eram péssimas.

A passagem das antigas instalações para as actuais acabou por disponibilizar um número maior de serviços à comunidade?
Não, no inicio foi apenas uma mera passagem física. Portanto o grupo de trabalho na altura da mudança era o mesmo, ou seja, constituído por um administrativo, um enfermeiro e um médico, que acabou por durar ainda alguns anos neste novo edifício. Depois tivemos alguns intervalos de tempo com dois enfermeiros até que há cinco anos acabámos por ficar com um segundo enfermeiro permanente.
Actualmente temos um administrativo, um auxiliar de apoio, três enfermeiros, dois médicos do quadro e mais uma médica.

Estará o aumento de recursos humanos ligado às necessidades da freguesia?

Sim, exactamente. Repare que antigamente uma criança dava trabalho para poucas consultas. A partir do momento que começamos a cumprir as normas da Direcção Nacional de Saúde, adaptadas à Região, que nos indicam o intervalo de tempo para vigiarmos uma criança ou uma grávida, acabamos por ter muitas mais consultas. Por exemplo, uma criança até fazer 2 anos tem 10 consultas, sem contarmos com os casos em que a criança pode estar doente. No caso de uma grávida, são pelo menos 7 a 10 consultas, depois esta tem a revisão de parto e posteriormente a pílula e planeamento.
Se as pessoas cumprirem com todos os planos, a quantidade de consultas é muito maior. Felizmente a saúde infantil e materna está actualmente muito bem.

Isto significa que a comunidade do Livramento já tem uma percepção diferente dos cuidados de saúde?

Sem dúvida que sim. Já temos vários casos de pessoas que fazem a sua prevenção. Marcam consultas como o objectivo de fazer um check-up, fazem alguma prevenção para doenças como o cancro da mama, hipertensão, diabetes, entre outros.
Ainda bem que já chegamos a este ponto. Mas claro, é preciso perceber que isso acaba por consumir muitas mais consultas. Se a população e o número de consultas por pessoa aumentou, a nossa capacidade de resposta tem também que acompanhar este crescimento.

O centro de saúde tem algum plano de intervenção nas escolas, atl’s ou idosos, com o objectivo de levar informação sobre os cuidados de saúde?

Não existe, não. Á algum tempo atrás consegui fazer este tipo deste trabalho. Mas o que acontece aqui é que muitas vezes de três em três anos mudam o coordenador de escola e muda também o quadro de pessoal das escolas. Existiu um período em que conseguimos fazer este tipo de aproximação. Apesar de não se fazer agora, sabemos que ambas as escolas estão dispostas a colaborar connosco neste tipo de partilha de informação.
É claro que mostramos a nossa disponibilidade sempre que solicitados, se por acaso existir um aluno com problemas de saúde e que o problema não esteja indicado pelos pais, o professor comunica-nos a situação e acabamos por resolver a situação.
Já aconteceu recebermos as escolas nas nossas instalações, o contrário é que acaba por ser difícil. Uma vez fomos fazer um trabalho nas escolas no dia mundial da alimentação, mas como não poderíamos estar muito tempo, acabamos por não conseguir fazer o rastreio que estava programado. Tenho esperança que, agora com o terceiro elemento no corpo médico, possamos ter uma maior disponibilidade para estas acções, porque nós gostamos e é um prazer fazer este tipo de intervenção.
O maior problema acaba sempre por ser a disponibilidade e para melhorar esta situação, tenho formado os outros elementos para mais tarde concretizarem estes rastreios e acções de informação. Mas claro, tudo isto leva tempo e como deve calcular temos que canalizar o máximo de disponibilidade possível para o atendimento às pessoas.

E sobre a gripe H1N1, tiveram alguma atenção extra na comunidade ou com responsáveis das instituições, no sentido de dar formação para que a informação, sobre os cuidados a ter fosse bem difundida?

Não, não tivemos qualquer outra acção. O que aconteceu aqui foi, as instituições entraram em stress e elas próprios tiveram o seu plano de contingência contra a gripe.
Nós no centro recebemos hierarquicamente as orientações e também não recebi qualquer pedido das escolas neste sentido.
Agora sobre das vacinas da gripe A, antes de fazerem as encomendas, pediram para se fazer um levantamento, que concretizei e enviei, composto por uma listagem com os nomes das pessoas que pertencem aos grupos de risco. Resta agora aguardar pela chamada pois a vacinação é feita por várias fases, e à medida que vai avançando a vacinação nós vamos contactando as pessoas referenciadas.
Eu inicialmente pensei que iria ser uma enchente por causa desta vacina, mas afinal não foi assim. Pedem apenas algumas informações sobre a vacina.

Como vê no futuro a área da saúde no Livramento? Espera uma maior adesão e atenção por parte da comunidade?

Sim, já existe uma boa adesão. As pessoas já fazem a sua prevenção de um modo consciente.
Neste momento o problema está em ter o número consultas disponíveis para o número de pedidos. É claro que, para se fazer um trabalho válido, a consulta acaba por demorar mais algum tempo, logo o número diário de consultas é menor. Eu não consigo fazer consultas de 5 minutos, porque não servem para nada, são um engano para o paciente. Além de que, eu em 5 dias úteis estou aqui no centro de saúde quatro, e destes dias, dois são para consultas às crianças, grávidas e de planeamento e os outros dois para consultas de adultos. Resumindo, para uma população como a do Livramento é muito pouco, não chega.
Para eu conseguir satisfazer esta necessidade, no futuro mais imediato, tenho que ter mais médicos disponíveis. É o que estou a fazer ao receber médicos que não pertencem ao quadro. Dou-lhes a formação necessária e vou-os integrando na realidade da freguesia, mas claro, isso não é garantia de que vão ficar aqui para sempre.
Tenho algumas dúvidas que consiga um terceiro médico no quadro devido à falta de profissionais existente na Região. Mas três médicos, para agora, seria o ideal, porque assim podia ir às escolas fazer as acções de informação e rastreios, a assistência médica ao domicílio e claro dar uma maior oferta nas consultas.
Tenho a noção que em outras freguesias a realidade é bem diferente, mas se hoje eu tenho três médicos aqui no centro, sendo dois do quadro, isto é o resultado de um trabalho meu, dos funcionários, dos utentes, do presidente da junta, ou seja de toda a comunidade, algo que não acontece em todos os locais.

Sobre o planeamento e aconselhamento familiar. Sei que o Centro Bem Estar do Livramento tem uma valência que dá apoio às jovens mães. Este trabalho de acompanhamento é também feito com o Centro de Saúde?

Já foi feito também por nós, mas deixou de ser feito. Isto porque no inicio esta valência do Centro Bem Estar, que está associada à Acção Social, tinha uma assistente social que não tinha grande conhecimento da realidade daqui do Livramento. Depois eles foram-se estruturando e criando uma base mais sólida, chegando ao ponto de não ser necessária uma intervenção directa da nossa parte, uma vez que na estrutura desta valência já existe uma enfermeira de obstetrícia, psicóloga, ou seja autonomizaram-se.
Mas independentemente desta nova estrutura, continuamos interligados, quando eles fazem pedidos ao Centro de Saúde, nós vamos ajudar.

Agora sobre a freguesia do Livramento. Como vê a evolução que foi aqui efectuada?

A freguesia tem sido privilegiadíssima, sem qualquer dúvida. É um trabalho que foi feito pensado e estruturado. O actual presidente quando entrou começou por arranjar a casa e depois foi intervindo na estrutura da freguesia, arranjando os espaços públicos, as sedes de instituições, proporcionou novos locais de lazer e de actividades.
Existe uma diferença muito grande nesta comunidade.
Tem também um factor importante que está no facto das pessoas não estarem de costas voltadas entre si, apesar de existirem limitações e dificuldades nada fica por fazer, a ajuda é mútua. Todos trabalham num único sentido e têm o prazer de trabalhar aqui.
Outro detalhe importante, está no facto do presidente ser uma pessoa disponível a tempo inteiro. Ele vive para esta freguesia e faz de tudo para que nada falte. A visão dele acabou por ser um factor determinante nesta evolução.
 
EISnt-Engenharia Informática